Francisco Sousa Guedes

quarta, 02 agosto 2017 17:38 Sócio fundador da Sousa Guedes, Oliveira Couto & Associados

Francisco Sousa Guedes“A Torre da Barbela”, publicada em 1964, é tida como a obra de referência de Ruben A., autor (e historiador) que merecia ser bem mais conhecido. Esteve esgotadíssima, mas consegui comprar o meu primeiro exemplar aquando da edição de 1983.

É uma história de pouca trama em que o que nos prende – e muito – não é a curiosidade do que vai acontecer a seguir, mas a imaginação do autor, a funda ironia, os brocardos, o vocabulário e a qualidade da escrita. Os críticos integram-na no surrealismo (sobre realismo).

Ruben A. põe-nos perante toda uma genealogia, daquela que tem interesse, a história de oito séculos de uma família portuguesa de fidalgos da Ribeira Lima (os Barbela). Apesar de terem frequentado a Corte e de terem corrido mundo (e como o lembram!), serão sempre provincianos. O retrato é o da História de Portugal, com todas as suas glórias reduzidas à miséria em que nos deixamos ficar. Diverte ainda mais quem conhece a prosápia dos fidalgos minhotos. Para eles, o Minho é o que está descrito n’ “A Torre da Barbela”. Só que tomam-na a sério.

A história tem uma particularidade (se não transcrevo, não transmito o suficiente): “Quando a linha do horizonte baixava em intensidade e os fumos azulados batiam a favor do vento e do andar das coisas, naquela dimensão abrupta que testemunhava o acender das constelações, os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre. De noite, ressuscitavam e, de companhia, traziam os amores e os ódios de outras eras e de outras sensibilidades, os dramas pessoais e a contagem de fábulas capazes de entrarem pelas goelas aveludadas dos vizinhos (…).” As personagens que desfilam perante nós interagem sem tempos: o fundador, o santo, um cavaleiro intemporal, a beata, exploradores aventureiros, o deputado do Estado Novo, a prima francesa e a dama do século XVIII e tantos mais.

Como diz Francisco José Viegas (e cito de cor), a alegria da leitura de um bom livro existe quando o leitor não é capaz de deixar de falar dele.

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