Carlos Aguiar

segunda, 15 maio 2017 13:55 Sócio da Carlos Aguiar, Ferreira de Lima & Associados

Carlos AguiarO número de palavras que me é autorizado escrever é pouco para exprimir o prazer que me deu ler e tentar transmitir o refinamento, a sensibilidade, a erudição e a qualidade literária de “Um Livro de Viagens” “Na Senda de Fernão Mendes” “Percursos Portugueses no Mundo”, já na sua 2.ª Edição, do Dr. Guilherme d’Oliveira Martins, que só há pouco tempo descobri numa livraria.

São relatos de viagens do autor (com uma segunda parte centrada em Portugal e nos portugueses que não partiram), inseridos no ciclo “Os Portugueses ao Encontro da sua História”, do Centro Nacional de Cultura, de que o autor é o Presidente, e “é um pouco na senda de Fernão Mendes Pinto que estas viagens se realizam e se tornam mágicas”. Invoca, entre outras, a “Peregrinação”, a “Odisseia” de Homero, a “Eneida” de Virgílio e os livros de viagens ingleses ilustrados do século XVIII como referências fundamentais ou paradigmas da literatura de viagens.

São descrições em estilo fluente, carregadas de referências históricas, literárias, artísticas e religiosas, que levam o leitor a Bombaim, Kerala, Cochim, Goa e ao Omã e à memória de São Francisco Xavier e de Afonso de Albuquerque; às Reduções jesuíticas do Paraguai, às Missões e aos Bandeirantes; à “Santa Rússia” e à memória de Ribeiro Sanches, Damião de Góis e de Luísa Todi, a diva preferida de Catarina a Grande; a Malaca e às ilhas das Especiarias; a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro, ao encontro do esplendor do barroco e das curvas de Óscar Niemeyer, “prolongamento” contemporâneo desse barroco, e ao Brasil refere-se como “exemplo de respeito e tolerância no tocante aos filhos de cruzamentos de grupos étnicos diferentes”, como o foi o Padre António Vieira.

E mesmo agora, afiança o autor, e não só nos séculos XVI a XVIII, ou nos relatos da “Peregrinação”, para onde as viagens do autor nos transportam, “não houve um só lugar no mundo a que fossemos em busca do Portugal histórico onde não tenhamos encontrado um português de carne e osso com o entusiasmo e a saudade como programa de vida”.

E cita Torga: “no decorrer dos séculos, este povo pacífico, que sempre se soube defender e nunca soube agredir, aparentemente parado no tempo, foi a própria encarnação do espírito renovador, na tolerância, na curiosidade, na inventiva.” E ainda o “Diário” de Torga: “Fundadora de novas pátrias, esta pequena pátria” tem uma “inquietação dispersiva que faz o português um peregrino das sete partidas, um cidadão do mundo”.

Ainda hoje é assim, embora – como sempre foi, aliás - nem sempre pelas melhores razões. Neste mês de férias, em que um dos temas candentes da actualidade política, que deveras preocupará os portugueses estirados nas praias, é a origem ou a autenticidade, ou não, das fotografias dos cartazes de campanha eleitoral dos dois principais partidos políticos, é salutar ler este livro.

Que maravilhosa, e, estou certo, bem sucedida, série televisiva sobre os Portugueses no Mundo nele se poderia inspirar, houvesse empenho, vontade e alguma coragem em levar um projecto desses para a frente!

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