Rui Gomes da Silva

quarta, 15 fevereiro 2017 16:08 Sócio da Legalworks

Rui Gomes da SilvaDa paixão – verdadeira paixão, desde muito novo – pela leitura, fui passando à busca de tudo e de mais alguma coisa na “net”, que vive paredes meias com os “smartphones” e com os “tablets”!

Do sonho, encontrado no imenso gosto de ler, passei (passámos???) ao prazer de tudo poder ver … à distância de um clique.
Perde, por certo, a imaginação, ganhando, em contrapartida, a realidade.

Foi essa mesma realidade que, tantos anos atrás, me fascinou em Eça de Queiroz.

E que o faz ganhar, sempre, em opções deste género (mesmo que nessa permanente disputa me sinta ingrato, deveras ingrato), com Luis de Camões, com António Vieira e com Fernando Pessoa!
Porque essa realidade virou, em mim, também, realismo.

Realismo no descrever de Lisboa, que só quem vive a cidade – com olhos de cá não ter nascido – pode admirar…

Dessas leituras, noite dentro, tão estranhas quanto excepcional era essa disponibilidade para, violando a normalidade, não adormecer à primeira página, fez com que ficasse (mesmo à distancia) esse fascínio pela Lisboa do Chiado, do Loreto, da Casa Havanesa, do Hotel Central ou do Hotel Bragança, do Tavares, do Teatro da Trindade, do S. Carlos, da Rua de S. Francisco, da Rua do Alecrim, do Aterro, do Rossio, do Passeio Público, das Janelas Verdes, do Ramalhete, do Largo de Belém…

Ou dos arredores … dos Olivais (da Toca) ou da Vila Balzac (então situada num subúrbio longínquo para os lados da … Penha de França), de Sintra, do Lawrence e do Nunes, de Monserrate, de Seteais, das queijadas ….

Quis o destino que, desde há 20 anos, o meu dia-a-dia, profissional, me fizesse reencontrar, reviver e respirar a cidade de Eça de Queiroz, com a sua – e, hoje, “minha” – Lisboa.

Centrado no Chiado – com escritório no velho edifício, tão majestosamente recuperado, do, então, Teatro Gymnasio – com quase toda a minha vida profissional (entre dias de reuniões, processos, computador, telefone, conferências e tudo o resto) a fazer-se a deambular pelos locais que me fascinavam, quando lia e sempre que releio os “Maias” (como também outros títulos de Eça).

Os “Maias” (episódios da vida romântica), … um livro fantástico, que me acompanha, sempre, nem que seja para me recriar num parágrafo ou dois de sublime escrita, relembrando a classe inigualável de Carlos da Maia (tirando uma fraqueza, sem exemplo), a graça infinita de João da Ega (o do “Diário de um Átomo”), a fanfarronice cobarde e gabarola de um Dâmaso Salcede … ou a capacidade de retratar tanto e tanto português como os Vilaça, os Cohen, os Alencar, os Gouvarinho, os Eusebiozinhos (os de Eça, que não o do Benfica!!!).

E, já agora, … de tantas Marias Eduardas.

Reconheço: sou um queirosiano fanático e entusiasmado.

Não sei se ainda poderemos dizer, como Eça de Queiroz, que “Lisboa é Portugal … Fora de Lisboa não há nada. O País esta todo entre a Arcada e S. Bento”, mas continuo a admitir como “habitante” do Chiado, já com uma legitimidade histórica apreciável, que, ainda e sempre de acordo com o autor de os “Maias” (embora “dito” noutra obra) …, "o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos decide no Chiado que Portugal seja – é o que Portugal é".

Sendo, para a Legalworks – Gomes da Silva & Associados, Sociedade de Advogados e para quem cá trabalha, uma referência muito importante a sua ligação à “velha” – mas sempre “menina e moça” – Lisboa, a cidade sempre fascinante de Eça de Queiroz, como o é, por certo, ainda hoje, porque não haveria de reconhecer que … é no Chiado que tudo existe???

Como nos “Maias”.

Porque, apesar de todo o tempo passado, tendo mudado quase tudo, …  quase nada terá mudado!!!

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